Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

A mulher moderna

Eram seis da tarde de véspera de feriado, em mais um escritório de advocacia. Atrás do computador, rodeada por calhamaços de processos e recados, ela mantinha a beleza de um sábado à tarde, e os traços de cansaço só eram visíveis àqueles que a conheciam bem. Para estes, ficava claro que o dia tinha sido difícil. Ainda assim, com didática, ela falava ao telefone com a empregada: "Não, não. Refogue o espinafre, mas não corte. Misture com pedacinhos de tomate, cebola e alho e coloque no macarrão. Não, coloque só na hora de servir." Minha mãe desligou o telefone com um suspiro, seguido de um sorriso, por me ver ali, e eu contei do meu dia.
Não existe uma pressão real para que nós, mulheres, sejamos perfeitas. Mas dada a capacidade de fazer e ser tudo, como resistir? Conforme as oportunidades se apresentam, nos entregamos às tarefas e ainda inventamos outras. Ganância? Um pouco, mas a questão é que nascemos com um grande defeito de sermos sempre prestativas, preocupadas, neuróticas e multifuncionais. Assim como as impressoras modernas, só que com sentimentos e belas pernas. E no fim do dia, sofremos com a falta de reconhecimento e para muitos, somos "apenas mulheres". Qual é o limite? Até que ponto irá a mulher moderna? Era isso mesmo que as feministas queriam? Em nenhum momento eu gostaria que as minhas oportunidades e capacidades fossem menores, mas é preciso ter um limite Qual é? Isso que chamam de igualdade? E quando o outro sexo vai começar a oferecer ajuda real?

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Desejos autodestrutivos

Ás vezes a sobremesa do jantar é manga, uma das minhas frutas preferidas. Mas eu sei que se eu comer mesmo um pedaço, eu durmo mal. Acordei com saudade daquele abraço específico, exatamente aquele que depois de me completar, me esvazia. É difícil de acreditar que aquilo que já me fez tão bem, me fará mal.
Porém, não falta experiência para comprovar que aquilo terá um efeito manga. Só que, como se fosse depois do jantar, os meus sentidos discordam, e pedem pelo contrário. O olfato pede o cheiro, os olhos pedem aquele olhar, o ouvido, a voz, e o paladar...
Não é preciso seguir apenas a lógica da razão para saber que isso é um erro. O coração já sofreu o suficiente mas ainda assim, ele insiste naquilo que trará mais sofrimento, convencido que isso pode fazer bem, levado por um impulso inconsequente. São desejos que levam à autodestruição, e continuarão a ser reprimidos.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Outra vida

Era um japonês de meia idade, que ficava em pé atrás do balcão da banca de revistas. Seria ele o dono da banca? Pela expressão meio preocupada, devia ser. Será que ele aproveita o expediente para ler revistas? Será que ele sabe o nome de todas as punblicações de cor?
Uma moça passou e levou uma revista de fofocas, um outro comprou pilhas. Um senhor entrou na banca e apenas olhava tdas as revistas. Como seria a vida deles?
Às vezes fico com vontade de viver vidas bem diferentes da minha. Sinto curiosidade de conhecer outras rotinas, descobrir outras linhas de pensamento, que chegam à outras soluções.
Fiquei imaginando a vida daquele japonês: será que ele também imaginava a minha? Será que ele era feliz? Ao mesmo tempo que a vida é curta, às vezes ela parece muito longa pra viver de uma forma só.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Quando mudar é preciso

Há um mês, fiz uma matéria sobre decoração de interiores, para gringos que se mudam para o Brasil. Como se sentir em casa em um país com uma cultura tão diferente?
Eu também estou prestes a mudar de casa, e fiquei surpresa em perceber minha relutância em deixar meu apartamento por um lugar novo. Eu, que me adapto bem em qualquer lugar do mundo, me encontrei com uma lista de razões para não mudar: não queria nem saber de deixar meu apartamento, a ordem da minha bagunça, o cheiro das coisas, a proximidade com a casa da minha avó. Mas enfim, mudar sempre é preciso, e escrever esse artigo foi uma oportunidade de ver a mudança de QG de ourtra forma. Aí vai o link,a matéria foi traduzida para o inglês, no site da Britcham: http://www.britcham.com.br/default.asp?id=1567

Domingo, 28 de Junho de 2009

A dor da perda

Levaram tudo o que estava naquela linda bolsinha vermelha alaranjada, comprada em um museu de Buenos Aires. Entreguei, as chaves, carteira, câmera e o batom. O apego piora as coisas, e não consigo deixar de listar os ítens, com uma dor no coração.
Porque sou tão apegada àquilo que me cerca? Estou falando das coisas materias e do carinho que tenho por elas. Qualquer budista iniciante iria me condenar pela minha possessividade e apego à tudo aqui que eu não vou levar para o túmulo. É claro que eu não iria pensar no tom vermelho do batom novo depois de morta. Mas viva, eu adoraria ter a possibilidade de desfrutar daquela câmera, usar aquela bolsa.
Ao mesmo tempo, as coisas deveriam ser diferentes? Eu tenho que estar pronta a entregar tudo o que me pertence à qualquer um, e não sofrer? Mais do que objetos, também me vi procurando no bolso o pouco que restava da minha falsa sensação de liberdade. Mas a verdade é que a qualquer momento a violência pode nos ser infligida, e não apenas por armas de fogo. E deveria ser assim? Vivemos nessa cidade para isso?

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Aquilo que tem o poder de trazer (muita) ansiedade

1 - Ficar sem internet: No meio de um e-mail, e a conexão caiu para nunca mais voltar. A Net não tem previsão. Dormi, acordei, arrumei o quarto, e nada. A respiração fica curta e rápida, aflita. Atualizo a página a cada cinco minutos para ver se as coisas mudaram, mas nada. Como todo viciado, logo entre em crise de abstinência. Quero sair de casa, procurar algum outro lugar que me conecte.
2 - Esperar telefonemas: assim como o primeiro problema, este também envolve o ato de esperar. Passei um feriado inteiro esperando a assessora ligar para confirmar a viagem para o Peru e foi uma angústia só.
3 - Ficar presa no cruzamento: o farol ainda nem fechou, mas já sinto que há algo de errado. O carro da frente não vai andar? Eu vou conseguir sair dali? Os motoqueiros vão passar xingando?
4 - Não conseguir falar uma língua: eu falo, falo e nada. Mudo o ritmo, o tom, experimento outras palavras, mas não adianta. Não me entendem, e eu não entendo os outros.
5 - Estudar matemática: depois de muitos anos longe dos números, as coisas ficam ainda piores, e eu sinto a burrice presente como uma assombração. Quero parar, fazer outra coisa, mas não posso, tenho que ficar ali, procurando o x da questão.
6 - Avião podre: Já peguei um voo da Iberia, que nem tv tinha. Passei o tempo todo prestando atenção em cada turbulência, ao lado de um estranho, intercalando entre livros, revistas, Ipod, jogo de paciência e Sudoku. Para piorar, os comissários passavam perguntando em tom nasal, fila por fila: "té? té? té? tchá?"

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Mal de altitude

Já perdi a noção do tempo. Não me lembro mais desde quando estou aqui, qual é o dia do mês e da semana, e ir embora parece um dia que não vai chegar. Ou assim, mais uma vez, eu gostaria. Suspeito que hoje de manhã cheguei em Cuzco, e para agravar minha confusão mental passei o dia acometida pelo mal de altitude ( 3.360 metros do nível do mar)
Começa com uma leve sensação de leveza e uma certa euforia, resultando em que tudo se torna levemente engraçado. De repente somos sugados pela gravidade, os passos ficam pesados e cabeça, igual à do fósforo, grande demais. Mas em um minuto a graça volta e estamos a sorrir, balançando a cabeça. Não é à toa que a palavra tonta, tem duplo significado.
Existem remédios mas em mim, eles não fizeram efeito, e investi em sorver todo o chá de coca que eu encontrei na minha frente. Não foi o suficiente, e enquanto olhava Cuzco do mirante, veio a tontura, um certo enjôo. Sono? Tudo é tão confuso por alguns momentos. Passou. Não, voltou. Preciso sentar, preciso ir, preciso respirar, sinto frio, sinto calor, quero os morangos andinos da feira, não quero entrar na igreja. As sensações passam rápido, e mal que voz ouvir em nós mesmos.
E o dia foi, mais uma vez, lotado, à la plano Vargas: três dias em um. Só melhorei lá pelas quatro da tarde, quando, desesperada dentro de um convento, peguei um montinho de folhas de uma feira de turismo que estava ali por acaso. Distribuí pelo grupo, e paramos de andar como joão-bobos. Que pena. Não, ainda bem.
Foto: peruanas ensaiando na Plaza de Armas, para mais uma festa de Corpus Christi.